O que Anne Helen Petersen ensina e como o burnout aparece em nossa rotina

Todos ao meu redor estão esgotados. Sério mesmo. E a grande maioria é millenial, assim como eu. Então, foi com curiosidade que comecei a leitura de “Não aguento mais não aguentar mais”, da jornalista Anne Helen Petersen.
Logo de cara a autora deixa claro que ela enxerga o burnout como a marca registrada da geração millennial, afirmando (e comprovando) que o burnout não é um problema individual, mas uma reação lógica a um mundo que cobra demais. Mas que “cobranças” são essas? A seguir, listo cinco fontes dessa pressão, segundo a autora, que ajudam a entender por que estamos tão cansados.
“Cansaço não é falta de vontade. É sintoma de um sistema que nos pede mais do que é possível.” — nota de leitura
1. O mito da meritocracia e a decepção geracional
“Esforço + faculdade = sucesso garantido” parecia fórmula, não aposta.
Fomos educados nessa promessa e aterrissamos em um mercado instável. A meritocracia se revelou mais slogan do que regra, e a pergunta que sobra é a mais incômoda: se fizemos “tudo certo”, onde está o emprego bom? Quando o sucesso vira loteria, a frustração deixa de ser defeito individual e passa a ter nome de sistema.
2. A precarização estrutural do trabalho
Produtividade sem previsibilidade é fábrica de exaustão.
Terceirização e “pejotização” corroeram a estabilidade e nos colocaram em reforma profissional permanente. Viramos um currículo ambulante, em modo otimização constante, tratando cada bico como se fosse virar carreira. Sobreviver virou estratégia de carreira, e o descanso, um luxo intermitente.
3. A instrumentalização do lazer e da vida pessoal
Quando tudo precisa “servir para algo”, o descanso perde sentido.
O ócio sem propósito foi cancelado. Ler, cozinhar, caminhar… tudo ganhou cara de trabalho não remunerado para turbinar marca pessoal. Até o autocuidado virou checklist com consumo embutido. No fim, a gente precisa descansar do próprio descanso, e a culpa ocupa o espaço que era para ser silêncio.

4. A carga desproporcional sobre as mulheres millennial
A planilha invisível de casa pesa mais que qualquer cargo.
Espera-se que mulheres gerenciem carreira, filhos, relacionamentos e a vida doméstica como se fossem CEO da própria existência — e da dos outros. A equação não fecha, mas a cobrança por perfeição continua. Sem redistribuição real de responsabilidades, “dar conta” é só outro nome para esgotamento.
5. A “paixão” como ferramenta de exploração
“Fazer o que ama” não paga boleto — e às vezes cobra juros.
A promessa romântica virou justificativa para salário baixo, jornadas extensas e direitos capengas, especialmente nas áreas criativas. Quem ama o que faz é levado a não impor limites, como se cansaço fosse falta de caráter. Paixão sem fronteira vira alavanca para esticar o aceitável até ele romper.
Aposto que reconheceu ao menos uma dessas pressões em sua vida e na das pessoas ao seu redor. Pois é, esse cansaço geral não é apenas “falta de energia”, e, enquanto não o percebermos como realmente é (um sinal de que o sistema está quebrado), não vamos conseguir mudar as regras do jogo.
Minibio da autora
Anne Helen Petersen (1981) é escritora, jornalista e crítica cultural americana, uma das vozes que melhor definem a experiência millennial. Doutora em Estudos de Mídia, viralizou com um artigo no BuzzFeed em 2019 que deu origem a este livro. Em 2020, deixou o BuzzFeed para se dedicar em tempo integral à sua newsletter paga, “Culture Study”, no Substack, que se tornou um grande sucesso.




